terça-feira, 3 de junho de 2008

PARTE II - Parto Fatal

Papai era italiano e, poucos meses antes de nascer, ele separou-se da minha mãe, deixando-a grávida de seis meses. Segundo ela, ele estava ilegal no Brasil e vivia da contravenção, já que não conseguia emprego legalmente. Infelizmente não cheguei, mesmo depois que nasci, a conhece-lo. Não que ele tivesse regressado ao seu país de origem, mas porque fora assassinado pelos seus próprios comparsas contraventores. Para complicar nossa situação, todos os seus bens foram tomados pelos bandidos e mamãe teve que sair do bairro que morava, ameaçada de morte. Filha única e de pais falecidos, sem ter a quem recorrer, vagou por alguns dias pelas ruas, sem encontrar um abrigo seguro para sua condição de grávida, até receber ajuda de uma mulher que vivia na favela da Mangueira. Mamãe tinha apenas 27 anos e era uma negra linda e apesar do barrigão enorme, não faltava quem quisesse se aproveitar da sua situação. Sem emprego e vendo as dificuldades que sua protetora se encontrava, tão logo conheceu meu futuro padrasto, juntou-se a ele e mudou-se para seu barraco.
Poucos dias se passaram entre a saída da minha mãe da casa da sua amiga e a ida para a casa do seu novo companheiro, quando...
- Tonho! Tonho! Quem são essas pessoas? – gritou apavorada, com a presença de três elementos invadindo o quarto.
Sem que tivesse tempo de responder, os elementos arrastaram-no porta afora e desapareceram na escuridão levando consigo Pará, como era conhecido na favela. Poucos minutos depois, para alívio da minha mãe, ele regressou com o rosto todo ensangüentado e alguns arranhões nos braços e pernas. Era, depois de ir para a sua companhia, a primeira vez que mamãe presenciara uma cena daquelas com ele. Até então, tudo transcorria muito bem entre os dois. Sem querer comentar nada, alegando estar cansado e sem poder falar direito de tanto ter gritado, tomou um banho e deitou-se, enquanto minha mãe preocupada, se perguntava no que teria se metido dessa vez. Quem era aquele cara com quem fora viver? O que teria feito e o que fazia, já que nada sabia a seu respeito, pois pouco conhecia do lugar e das suas amizades, uma vez que sua gravidez deixava-a na maioria do tempo dentro de casa cuidando de mim dentro da sua barriga. Mas, com certeza, ela sabia que tinha entrado numa outra enrascada e que logo outra bomba iria estourar.
Mamãe era uma negra linda e o barrigão lhe dava um charme todo especial. Era nova e não fosse ter se apaixonado pelo italiano, meu pai, talvez tivesse mais sucesso na vida. Era caixa de uma loja de sapatos, na rua da Carioca, quando o conheceu e, tinha tudo para ter sucesso na Itália, para onde a levaria, não fosse ter sido assaltado e ter seu passaporte roubado, o que fez com que permanecesse no país e mudado o rumo da sua história. Talvez, se não tivesse conhecido ele, fosse uma grande passista, pois sambava muito! Tinha um corpo lindo e chamava a atenção de todos. Infelizmente, nem sempre as coisas é como a gente quer e hoje, estou aqui contando a minha história e o pior é que ainda nem nasci, mas falta pouco, no máximo dois meses e vou conhecer a vida lá fora; acompanhar mamãe onde quer que ela vá...
Os dias se passaram e, diferente do que estava previsto, nasci 30 dias antes e numa data difícil de se comemorar. Não sei porque a gente tem que nascer num dia que só existe de quatro em quatro anos!
- Para! Para! – gritava mamãe, cheia de dores.
O barraco que eles moravam era alugado e, apesar de ser de tijolos, não tinha nenhum conforto e apenas um pano enorme separava a cozinha do quarto. O banheiro ficava do lado de fora e outros vizinhos utilizavam-no também. Acho que todo mundo, daquele beco, ia ali! Foi assim que minha mãe pôde ser socorrida, felizmente.
- Socorro! Alguém me ajude! – gritava um rapaz que fora ao banheiro e se deparara com minha mãe contorcendo-se de dores no chão daquele quartinho imundo.
Já passava das dez da noite daquele dia 28 de fevereiro de 1980. Aos poucos as pessoas iam surgindo de todos os becos, e iam tomando conhecimento do que estava se passando. Sem saberem quais as providências tomar ao certo, iam dando suas opiniões cada uma sugerindo uma coisa diferente, foi quando uma senhora, também de cor negra, aparentando bastante cansaço mais pelo tempo que pela idade, pediu que chamassem o Zé do boteco para socorrê-la em seu carro até o hospital mais próximo, pois sua bolsa havia se rompido e tudo indicava que iria me perder, caso não fosse socorrida imediatamente. O mesmo rapaz que a encontrara estendida naquele lugar asqueroso, saiu às pressas ao encontro do tal sujeito sugerido pela bondosa senhora, enquanto eu me esforçava para sair da barriga da minha mãe bem antes do que ela havia planejado. Não demorou muito e o rapaz muito ofegante voltava com a noticia que todos queriam...
- Gente! Ajudem-me a levá-la até a saída do beco. Seu Zé já está lá esperando – disse num tom de quem tinha muita pressa.
Imediatamente, as pessoas se prontificaram em leva-la até o local onde o velho carro se encontrava. Talvez, com um pouco de sorte, conseguissem chegar até o hospital do Andaraí, dado era o estado lastimável daquele velho carro. Mas, tudo bem. O importante era transporta-la o mais rápido possível. Contorcendo-se de dores, mamãe, conseguiu entrar no carro e lá fomos nós. Àquelas alturas, mamãe sofria muito e seu medo maior era o de me perder e isso era notado nas suas palavras, pois repetia constantemente que me salvassem.
- Quem é o seu responsável? – perguntou a enfermeira de plantão.
- Somos seus amigos e a estamos acompanhando, já que se companheiro não se encontrava no momento em eu ela começou passar mal – respondeu Zé do Boteco, que se adiantara na resposta à pergunta da plantonista.
- Pelo visto, está em trabalho de parto e provavelmente não será feito por aqui. Aguardem um só instante que a médica está a caminho – disse tentando confortar todos ali presentes.
Dona Filomena, a senhora negra que acompanhava minha mãe, a toda hora lhe pedia calma. Coitada da mamãe chorava copiosamente enquanto, confundia-se com suas lágrimas, um volume enorme de suor que brotava da sua linda pele negra e aveludada. De repente, como seu Zé já havia pressentido, a enfermeira disse que melhor seria conduzir minha mãe para a Pro Matre, na Praça Mauá. A médica de plantação estava atendendo uma emergência e demoraria mais do que ela esperava e, de qualquer forma o trabalho era de parto e o melhor mesmo seria remove-la dali o mais rápido possível. Sem esperar mais nada, seu Zé pressentindo o que poderia acontecer, imediatamente empurrou a maca, onde ela se encontrava deitada e gemendo, em direção ao velho carro, pegou-a sozinho no colo e a colocou de volta no banco traseiro, pediu que a velha senhora entrasse e saiu em disparada em direção à maternidade no centro da cidade.
O transporte de pacientes de uma unidade médica para outra e vice-versa bem como o atendimento domiciliar, no Brasil, de uma maneira geral, é um problema antigo e que até hoje não conseguiram resolver. Uma das formas de acabar com essa triste situação, seria a privatização sistemática do sistema, onde um único número, por exemplo 119 discado seria o suficiente para a remoção do paciente onde quer que esteja e a remuneração do transporte seria tabelada recebendo o beneficio a ambulância que chegasse primeiro ao local. Essa medida evitaria fatos como o “caso das ambulâncias”, “as compras de ambulâncias que nunca operam”, “as faltas de ambulâncias por sucateamento” entre tantos outros problemas de mesmas características.
- Saiam da frente! Saiam da frente! – gritava ofegante seu Zé que conduzia com muito sacrifício aquela jovem grávida em direção ao interior da maternidade.
Um enfermeiro ofereceu prontamente uma maca e mamãe, finalmente, foi conduzida para a emergência e, após um exame rápido de um jovem médico que passava naquele momento por ela, determinou ao enfermeiro que fosse imediatamente conduzida a sala de partos. Eu já estava ficando cansada daquela situação e, não demorou muito...
- É uma menina! – sorriu o médico, que àquelas alturas já havia feito oito partos com sua equipe médica e, segundo um dos seus auxiliares, tinham ainda muitas horas pela frente até que fossem substituídos.
Passava da zero hora e, para ser mais exata, 00h49m do dia 29 de fevereiro 1980. Este é o horário exato do dia do meu nascimento e também do pior momento da minha vida... Mamãe morreu! Segundo a médica da equipe, ou era ela ou eu e, não sei qual o critério adotado, naquele momento, e me escolheram. Por que não optaram por ela? Tinha tantos planos, apesar das suas condições precárias? Mas, apesar de tudo, até ali meus outros quatro irmãos nunca dependeram de drogas, de ir para as ruas pedir ou roubar dinheiro de ninguém! Por que então, escolheram a mim para viver? Como poderei ter uma vida feliz sem ela do meu lado? Meu padrasto, pouco tempo vivera com ela, teria condições de me educar e aos meus irmãos? Na verdade, nem mamãe sabia direito quem ele era, tão pouco tempo tinha de convivência. Será que ele vai continuar conosco sem ela para tomar conta da gente? O que será do meu futuro e dos meus irmãos?
Enquanto me questionava, olhando toda aquela alegria, por parte da equipe que me salvara, lá fora da grande sala de parto, num corredor frio de onde se podia ver e ouvir o barulho da chuva que caia sem parar e de maneira poucas vezes vista naqueles dias de fevereiro, dona Filomena e seu Zé nem se davam contas do que se passava entre aquelas paredes cheias de aparelhos estranhos; do que ocorrera com a vida da minha mãe, minha heroína! Impacientes com a demora do parto, pois ninguém, apesar das poucas pessoas que ali estavam, os procurara para comentar nada a respeito da paciente que desaparecera numa das salas daquele enorme corredor. De repente, respondendo às preces da bondosa senhora que acompanhara mamãe pela primeira e última vez, numa saída sem volta, alguém perguntou:
- Alguém da família de Mariana Celestina Ribeiro da Silva? – gritou o enfermeiro.
Todos permaneciam em silêncio e olhando-se se questionavam quem seria a tal Mariana. Na verdade, nenhuma das duas pessoas que levaram-na àquela maternidade a conhecia pelo nome verdadeiro, pois na comunidade era conhecida por Nêga, Morena, apenas uma ou outra pessoa a tratava por Mara. Mariana nem pensar! Seu grave estado, quando chegou aquele local, impediu que seus dados fossem tomados e por isso a falta de resposta.
- Alguém conhece Mariana Celestina Ribeiro da Silva? – insistiu o enfermeiro.
O tempo se passava depressa e, como chovia muito, seu Zé não tinha pressa de sair dali. Talvez por isso não se preocupasse em buscar, com mais rapidez, informações sobre o que se passava com mamãe. Dona Filomena, por outro lado, começava a se incomodar e vez em quando comentava a respeito:
- O que estará acontecendo, seu Zé? Será que Nega já teve sua cria? – perguntou a pobre velha.
- Não sei, dona. A gente fica aqui e ninguém diz nada. Mas, será que aquele rapaz que há pouco andou chamando uma tal de Mariana... Pode ser ela, dona Filomena! Eu mesmo não sei seu nome! A senhora sabe? – perguntou assustado.
- Não! É isso mesmo. Vou até lá dentro me informar – disse.
- Vou com você – completou dona Filomena.
Ambos dirigiram-se para a portaria onde, após alguns esclarecimentos tomaram conhecimento do que se passava lá dentro. Uma atendente, muito simpática, conduziu os dois até o local onde se encontrava, ainda sobre um leito, coberto por um lençol branco, minha mãe. Foi então que a médica de plantão, mas que não participara do parto, explicou o que ocorrera. Comovida, mas tendo que cumprir seu papel, a médica anotava os dados fornecidos, pelo pouco que conhecia da minha mãe, da dona Filomena que se derramava em lágrimas.
- Pobre criatura. Tão linda e tão jovem! – sussurrava. – E suas crianças, meu Pai, como ficarão? Quem cuidará desses pobrezinhos? E agora, doutora o que faremos? – indagava, enquanto silenciosa, a jovem médica a contemplava afagando-lhe as mãos.
- Infelizmente, minha senhora, é uma vida que se vai. Felizmente, pudemos salvar sua filha para dar continuidade a essa mesma vida. Com certeza Deus sabe o que faz. Ela não se foi em vão e poderia ter sido salva se não tivesse se entregue tanto. Preferiu que sua filha nascesse, a viver – tentou conforta-los, a médica.
Vendo o sofrimento da velha senhora e do homem que a acompanhava, a médica os conduziu até o berçário, onde puderam ver o lindo bebê que tinha, preso a uma das mãozinhas, o soro que o iria alimentar por algum tempo, já que seu nascimento fora prematuro e necessitava desses recursos. De longe, chorando copiosamente, a pobre velhinha ia me descrevendo... Eu nascera, apesar de prematura, com 2,4kg e 41cm, cabelos pretinhos e arrepiados como os de um chinês, a pele negra avermelhada e sempre inquieta, chorava muito. Acho que era a falta da mamãe para me ninar. Seu Zé disse que era eu um bebezinho lindo e dona Filomena concordou, assim como a médica também. Mas eu era mesmo um lindo bebê! Enquanto me admiravam, uma maca parou em frente ao berçário, na minha direção. Sobre ela, jazia o corpo da minha mãe que, propositalmente o padioleiro parara para se despedir de mim. Meus amigos, num gesto sublime também se despediram e não demorou muito, me acenaram também, num gesto de despedida.
Os dias se passaram, cinco, depois do meu nascimento e ninguém foi me procurar. A direção do hospital começara a se preocupar com meu problema. O Serviço de Assistência Social então tomou sua primeira providência, enviando até o morro da Mangueira um Assistente para que localizasse algum familiar e me tirasse daquele local. Felizmente, como mamãe era uma negra que chamava muita atenção, logo pôde localizar o meu endereço. Meu padrasto se encontrava em casa cuidando dos meus dois irmãos mais novos, já que os outros dois tinham sido entregues a um orfanato assim que nasceram e, conforme fiquei sabendo anos mais tarde, foram doados para duas famílias de estrangeiros, sendo uma italiana e a outra alemã.
- Bom dia. Senhor Pará? – perguntou a jovem assistente.
- Sim, sou eu – respondeu confuso, ao ver aquela jovem branca e linda à sua frente.
- Sou do Serviço Social da Pro Matre onde se encontra sua filha – disse. – Precisamos da sua presença para retira-la de lá, já que não há mais necessidade dela naquele berçário, pois o tratamento que lhe foi aplicado já foi concluído – concluiu.
- Trabalho com carpintaria e estava fora e só esta madrugada, quando regressei, após seis dias, é que tomei conhecimento do que havia acontecido com Nêga. Ainda não acordei de tudo isso e não sei o que vou fazer. Tem dois outros guris que estão com o vizinho e que também precisam de muito cuidado e agora esse que acaba de nascer... – ia continuar, quando a assistente o interrompeu.
- Já estamos sabendo da sua situação, senhor. Entretanto, precisamos que tome uma providência para liberar o mais rápido possível aquele bebê. Sugiro que vá até lá para ver o que podemos fazer, nesse caso – disse.
- Sinceridade, senhora? – perguntou indeciso. – Não sei se irei – respondeu.
- Como assim? – indagou confusa, a assistente.
- Não tenho onde deixá-la. Tenho mais dois e não sei o que fazer. Além do mais, não me sinto tão pai assim. Conheci Nêga tem mais ou menos dois meses e ela nem mesmo chegou a tomar conhecimento dos meus problemas. E, acontece uma coisa dessas! – explicou cheio de indignação.
- Entendo, senhor – disse. – De qualquer forma, seria bom o senhor ir até lá. Tentaremos buscar uma forma de ajudá-lo. O senhor não conhece ninguém da sua família? – perguntou.
- Não. Infelizmente não cheguei a conhecer ninguém dela. Mas, pelo pouco que me contou, não tinha ninguém mesmo – respondeu.
- E os outros filhos, onde se encontram? – insistiu.
Foram doados, segundo ela. Na verdade, não cheguei a conhece-los. Como disse, tivemos pouco tempo de convivência. Gostaria que estivesse aqui, pois era maravilhosa e estávamos nos dando muito bem. Como disse, tenho problemas que ela desconhecia e que estava corrigindo em função dessa convivência, que apesar de pouca, estava sendo-me muito benéfica. Foi uma pena o que aconteceu e, com toda certeza, não sei o que vou fazer daqui pra frente – concluiu

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