Pretinha, personagem principal do romance, nunca conheceu seus genitores e nem tão pouco teve pais adotivos. Seu pai, que era italiano, e que vivia na ilegalidade no Brasil, após ter tido roubado seu passaporte, contraiu dívidas com traficantes e não cumpriu com elas sendo assassinado por isso. Sua mãe, uma linda negra, impossibilitada de sustentar quatro filhos e mais uma gravidez, entregou os dois mais novos para um casal de italianos; amigou-se com um nordestino que morava na favela da Mangueira e durante um parto complicado, veio a falecer, deixando seu companheiro com dificuldades para criá-los e desestimulado, nunca foi conhecer o bebê que ficou abandonado na maternidade e que alguns dias depois foi encaminhado para uma entidade de adoção, no centro do Rio.
Sentido-se constantemente rejeitada, Pretinha resolve, após ser incentivada por um dos colegas órfãos, fugir do orfanato indo para as ruas do centro da cidade onde permaneceu por 30 dias até ser reconduzida a casa de onde fugira, quando estava sendo levada por criminosos que foram perseguidos e presos pela polícia, sendo na ocasião, um deles assassinado.
Aos oito anos de idade, finalmente uma velha senhora, que conhecera sua mãe, tenta sua adoção, com o apoio da assistente social que prestava serviço naquele orfanato e, apesar de todos os esforços, a adoção não se concretiza, mas Pretinha também nunca mais voltaria para o orfanato. A velha senhora falece em função de complicações na sua saúde, agravada pela teimosia da sua protegida que, indiferente aos seus conselhos, é aos oito anos e seis meses estuprada por três elementos da favela e que mais tarde são assassinados pelo mesmo motivo.
Aos nove anos de idade, após conhecer um traficante que vivia no alto do morro, na mesma comunidade, e contra a vontade do Zé da Birosca, um nordestino que apoiara sua pretensa adoção juntamente com a velha senhora que falecera, Pretinha, alegando que sua esposa nunca gostara dela, vai morar com o tal elemento que logo a faz de objeto sexual e de empregada, além de ser espancada, ficar de castigo, assistir às orgias e maldades que lhe impunha e aos seus oponentes, entre tantos outros caprichos.
Aos doze anos de idade, já conhecia a maioria dos bailes funk das comunidades, mais próximas pois sua amiga assídua freqüentadora, leva-a sempre nesses lugares. Pretinha tem seu primeiro filho e que é motivo do assassinato dos seus dois melhores amigos, Blenda e Binho, com os quais mantinha um triângulo amoroso. Nicolas, seu bebê, nada se parecia com Dica, seu companheiro, motivo de chacota por parte dos comparsas e gerando grande indignação(...). Seu presente de aniversário, um buquê de rosas vermelhas, um chaveiro e uma gargantilha, anunciavam a morte dos seus únicos amigos assassinados por vingança pelo seu próprio companheiro(...).
Aos quatorze anos de idade, após a tomada da favela por uma quadrilha rival, acompanha Dica na fuga e refugia-se na favela da Vila Cruzeiro, onde em pouco tempo é estupidamente assassinado pelos seus comparsas, após tentar trapaceá-los numa partilha de um assalto a um carro forte e que envolvia muito dinheiro.
Sem amigos e ninguém que pudesse ampará-la, perambulou por alguns anos nas ruas do centro do Rio e depois do centro de Duque de Caxias, onde se uniu a um grupo de invasores morando por algum tempo sob um teto de plástico na favela da Vila Ideal. Ainda nessa favela, é ajudada por um rapaz que a inscreve num programa da casa própria.
Preto, seu companheiro de orfanato, que a ajudou a fugir e com o qual, algum tempo mais tarde, manteve um caso, cumpria pena em Bangu por associação ao tráfico de drogas. Apaixonado por ela, prometera que quando saísse a procuraria e nunca mais voltaria a traficar ou ter qualquer envolvimento com o tráfico ou coisas dessa natureza.
Após deixar a favela da Vila Ideal, por causa da construção de casas no local onde erguera seu barraco, transfere-se, com seu filho, para a favela do lixão de onde passa a tirar seu sustento. Por uma coincidência do destino, o jovem que sempre a ajudava, quando ainda morava na favela da Vila Ideal, na verdade era seu irmão. Diogo como era chamado, foi criado por uma família na mesma comunidade que ela, sem no entanto se conhecerem. Diferentemente do outro irmão, que ainda cumpre pena, por assassinato e envolvimento com o tráfico, seu único problema foi ter pedido dinheiro emprestado, para ajudar Diego, jurado de morte, a um agiota da favela e ter que fugir pelas ameaças que sofria por não conseguir pagar. Foi assim que conheceu Pretinha e a ajudou inscrevendo-a no Programa da Casa Própria e a manter contato com o Preto, no presídio, e que seria seu futuro companheiro e pai de quatro dos seus cinco filhos.
Pretinha órfã de pai e mãe, estuprada aos oito anos, casada aos nove anos, um filho aos doze, apesar de conhecer o mundo das drogas, do crime, da humilhação sofrida pelo seu parceiro, das ruas, de passar fome, catar lixo e muitas outras coisas piores, teve forças para superar tudo, sem se viciar e nem se prostituir. Hoje, aos vinte e sete anos, ao lado de seu companheiro que, por amor, deixou o mundo do crime e, cuidando dos seus cinco filhos, considera-se uma mulher feliz e posso afirmar que é pois jamais esquecerei seus sorrisos, seu entusiasmo e o carinho que tem pelas pessoas, pela vida. Pretinha, Carol, Carolina, não importa. Importante é que sobreviveu pela força de vontade e, apesar da realidade em que vive nos dias de hoje, se diz uma pessoa feliz (...).

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