sábado, 28 de junho de 2008
PARTEs
quarta-feira, 25 de junho de 2008
PARTE XI - Relembrando o Passado(Partes)
- E eu não sei disso, minha filha! Queria eu estar no seu lugar, ia foder com todos eles ao mesmo tempo! – sorriu.
- Você é louca! Tem um lá que você não ia agüentar mesmo! – disse para ela.
- Por que, fede muito? – sorriu.
- Não. Tem um pau do tamanho e grossura de uma mangueira! – exclamei.
- Então é mole! – disse.
- Mole? A mangueira que me refiro minha querida é uma árvore que tem lá no orfanato, grande e grossa. Você não ia agüentar mesmo!
- Você que pensa! – sorriu.
Esse papo ia nos excitando cada vez mais e a chuva nada de parar.
- Pretinha! Me lembrei. Tem uma amiga que mora aqui perto. Vamos dar um pulo até lá? – indagou dizendo ter se lembrado de repente.
- Amiga? – perguntei.
- Sim, amiga. Bem, é mais amiga que amigo. Na verdade, é um travesti. Mas, com certeza você vai se amarrar nela – disse cheia de más intenções.
- Via muitas delas aqui, quando dormia na praça. Do outro lado da rua vivia cheio delas. Pareciam mulheres de verdade! – disse.
- Mas, são mesmo. Só que tem um bingolinho na frente. O resto é tudo igual – sorriu.
- Mas, e a chuva? – perguntei.
- É aqui pertinho. Não dá nem pra se molhar direito – e dizendo isso, saiu me puxando pelo braço em direção à casa da amiga.
Já passava das oito da noite, quando chegamos. Para nossa sorte, Bianca se encontrava. Realmente, era tudo que Blenda tinha me contado: loira, olhos verdes, cabelos longos e lisos naturais, alta, bem afeminada e bastante simpática.
- Oi, querida! Que faz essa hora por aqui? – perguntou o traveco. – Entrem. Vão pegar um resfriado. Espera que já volto – e sem aguardar respostas, virou-se e logo voltou com duas toalhas para nos secarmos. Na verdade, ela estava preocupada mesmo era em proteger seu pequeno apartamento e não deixar que molhássemos seu assoalho. Se é que se podia chamar aquilo de apartamento. – Uhm, que neguinha linda! – elogiou. – Novinha, não? Quantos anos, queridinha? – indagou.
- Onze – respondi.
- E já na putaria, não é mesmo? – disse sorrindo.
(...)
domingo, 22 de junho de 2008
PARTE XI - Relembrando o Passado
- Não queria mais ir lá pra cima. Estou me sentindo mal e só estou por lá por não ter onde ficar sabia? – indaguei.
- Se quiser, dou um jeito de você ficar lá em casa. O problema é o Dica, sei que não iria concordar e mexer com esses caras, é foda! – explicou.
- Sei disso. Mas, adoro ficar na sua casa. Binho vai sair fora e poderíamos dormir juntas, não é mesmo? – disse toda animada.
- Era tudo que queria mor. Vamos ver o que podemos fazer. De repente, com esse lance dos caras invadirem lá, eles saiam fora e aí, é a hora. Só se os caras... – ia continuar, quando a interrompi.
- Mas, mesmo assim, o Dica vai querer que vá com ele... Porra! Não gosto muito dele. O cara me maltrata e só vive drogado... – tentei explicar.
- Drogado! Legal! Esse é dos meus! – brincou.
- Falo sério, Blenda. O negócio por lá é muito perigoso. Sabia que tem um carinha deles que fica me paquerando o tempo todo? É só Dica virar as costas que o cara fica me sacando. Já me pegou nua duas vezes e umas tantas outras, o peguei me olhando e fazendo sinais de sacanagem. Já pensou se o cara o pega? De repente pode até achar que estou dando mole e aí, pode até se virar contra mim – expliquei.
- Vai dizer que você não gosta? É só ter cuidado boba – disse.
- Eu sempre os vejo nus, mas finjo que não. Mas que dá um tesão tremendo, isso dá! – comentei.
- E eu não sei disso, minha filha! Queria eu estar no seu lugar, ia foder com todos eles ao mesmo tempo! – sorriu.
- Você é louca! Tem um lá que você não ia agüentar mesmo! – disse para ela.
- Por que, fede muito? – sorriu.
- Não. Tem um pau do tamanho e grossura de uma mangueira! – exclamei.
- Então é mole! – disse.
- Mole? A mangueira que me refiro minha querida é uma árvore que tem lá no orfanato, grande e grossa. Você não ia agüentar mesmo!
- Você que pensa! – sorriu.
Esse papo ia nos excitando cada vez mais e a chuva nada de parar.
(...)
sexta-feira, 20 de junho de 2008
PARTE X - Trângulo Perigoso
- Blenda! Blenda! – gritava desesperadamente.
- Blenda não está. O que quer com ela? – perguntou sua mãe.
- Dona Clotilde posso entrar, por favor? – respondi apavorada.
Abri o portão de madeira de caixotes e entrei o mais rápido que pude. Dona Clotilde, vendo meu desespero, tratou de me oferecer um copo com água que aceitei prontamente. Contei para ela o que estava acontecendo e, com a experiência que tinha, de tanto tempo de favela, procurou me acalmar, sem se importar com os tiros que se ouvia em todas as partes do morro. Parecia uma guerra.
- Posso ficar por aqui, até essa situação terminar? – perguntei chorando muito.
- Não tem onde você ficar, filha. O namorado da Blenda está aqui, dormindo no mesmo quarto dela. – respondeu.
- Que ótimo! – exclamei, deixando-a de olhos esbugalhados.
- Que disse, menina? – perguntou sem entender o motivo de tanta alegria.
- É que estava preocupada com sua situação. Não tinha notícias dele, faz tempo, e fiquei satisfeita(...).
quinta-feira, 19 de junho de 2008
PARTE IX - Mulher de Bandido
terça-feira, 17 de junho de 2008
PARTE VIII - Atrapalhada Adoção(partes)
- Pretinha! – disse Dica me pegando pelo braço. – Vamos lá pra cima. Não vai embora agora não.
- Não posso! – respondi.
- Por que não? – perguntou.
- Meu tio daqui a pouco passa lá. Se não estiver, fica chateado comigo. Amanhã nos vemos de novo, pode ser? – respondi.
- Aí, amanhã leva seus bagulhos lá pra cima. Você não vai mais morar lá embaixo não! – disse largando meu braço e se afastando.
- Vamos ver! Vou pensar – respondi.
- Pensar o cacete! Vou estar te esperando – gritou de longe.
Todo dia e quase toda hora a gente transava. Bastavam seus comparsas não estarem nos olhando e lá estava ele trepado em cima de mim. Eu adorava. Não sentia mais dores e já estava acostumada com aquela situação. Morar com ele era só o que faltava, mesmo assim ainda demorei alguns dias para tomar uma decisão daquelas.
(...)
segunda-feira, 16 de junho de 2008
PARTE VIII - Atrapalhada Adoção(partes)
- Que foi, pretinha! Que aconteceu? – disse ela extasiada com minha situação.
- Você sabia! Eles me estupraram! – disse aos prantos.
- Eles quem? Só havia Léco, Pretinha! – dizia Blenda.
- Não! Tinha mais dois colegas dele e os três transaram comigo. Eu era virgem e agora? – chorando sem saber qual providência tomar, fiquei por ali com receio de ir para casa e assustar minha avó.
Enquanto Blenda, sem saber o que fazer tentava me confortar, seu namorado desaparecia pelos becos afora. Sabia que iria sobrar para ele. Fui para casa e não comentei o fato com a minha avó. Lavei minhas roupas que estavam cheias de sangue e, cheia de dores, tentava dormir. Vovó, ouvindo meus gemidos, levantou-se e foi até o meu quarto.
- Algum problema, Pretinha? – indagou.
Sem conseguir esconder as dores que sentia, desabafei e contei tudo o que ocorrera.
- Não te falei minha filha! Esse lugar é muito perigoso e você só vive na rua! Sabia que podia acontecer isso. Vamos ao posto médico. Troca de roupa - ordenou.
Já era tarde. Duas da madruga precisamente, quando ela tomou essa decisão, depois de ver que minhas dores só aumentavam. Ainda pensou em falar com tio Zé, mas voltou atrás e decidiu me levar sozinha. Dei alguns passos fora da casa e cai. Estava muito traumatizada e o osso da minha perna próximo da vagina doía muito.
- Vó! Não estou conseguindo andar – disse chorando.
- Minha filha! Meu Deus! Que é que você foi fazer? – lamentou-se ela.
- Vamos deixar para amanha, vó? – perguntei.
- Não, minha filha. Espere um pouco que vou buscar ajuda – e deixando-me deitada, saiu sozinha.
Eu não tinha idéia das conseqüências daquela situação. Não demorou muito, vovó chegou acompanhada por duas pessoas, sendo um homem bastante velho e um rapaz, logo reconhecido por mim. Eles não sabiam do que se tratava e sim que precisava de ajuda médica.
(...)
domingo, 15 de junho de 2008
PARTE VIII - Atrapalhada Adoção(partes)
- Aí, a garotinha é cheia de frescura. Me deixou na mão, parceiro! Está dizendo que é virgem! – comentou.
- E garota, qual é! O parceiro é gente boa! – disse o amigo.
- Pega leve! A garota só tem só tem oito anos - disse Blenda.
- E daí, vai dizer que ela nunca deu pra ninguém? – indagou o rapaz.
- Nunca mesmo! E não vai ser você quem vai fazer isso – disse revoltada.
(...)
sábado, 14 de junho de 2008
PARTE VIII - Atrapalhada Adoção
- Carolina! Carolina! – olhei na direção da voz e vi a tia Catarina, a Assistente Social, sorrindo.
- Oi, tia! – disse sem entender do que se tratava e continuei comendo.
- Carolina! – repetiu.
- Já vou, tia. Já estou terminando – respondi, despreocupadamente.
Estava cheia de fome, pois não tinha feito qualquer lanche, desde que levantara pela manhã e me entocara nos fundos do quintal. Estava envolvida nas minhas tristezas e não atendi ao chamado das tias nem comi o lanche, que um visitante me dera. Preferi dá-lo para o Teço, enquanto estive toda manhã conversando com ele. A tia Catarina se aproximou e me deu um beijinho.
- Vejo que estás faminta, não é mesmo? – indagou sorrindo.
Olhei para ela e sorri inocente sem ter idéia da surpresa que me esperava lá fora.
- Assim que terminar o almoço, vá escovar os dentes e pegue todos os seus pertences – disse.
- Tudo bem, tia – e continuei almoçando.
Estava tão desacreditada, que nem me dei conta na expressão “Pegue todos os seus pertences,” que ela havia me dito. Juninho curioso aproximou-se e perguntou:
- Que foi que ela disse Pretinha?
- Pra eu pegar todos os meus pertences – respondi.
- Pra que, Carol? – indagou Demétrius, o orelha, que estava ao meu lado.
- Não sei. Acho que vai me trocar de lugar com alguém – respondi.
- Será que foi porque você ficou escondida, a manhã toda, lá na mangueira, Pretinha? - perguntou Cebolinha, o terrível.
Enquanto todos estavam curiosos com aquela súbita presença e não me davam um tempo sem que me perguntassem sobre o que ela falara comigo, eu procurava comer o mais que podia, pois estava faminta. Assim que terminei, fui até o alojamento e, numa sacola velha que tinha guardado desde que voltara da minha fuga, enfiei tudo que me pertencia e fui ao seu encontro, na sala da diretora, conforme havia me pedido. Para minha surpresa, vovó Filomena me aguardava sentada numa velha poltrona com forro de cetim azul com detalhes roxos(...).
PARTE VII - A Visita
- Zé! Não seria ela? – disse olhando-me com certo espanto.
- Será? – respondeu com sotaque.
- Como se chama minha filha? – perguntou-me a velha senhora.
- Carolina. Mas pode me chamar de Pretinha – respondi.
- Até o apelido se parece com o dela – disse olhando-o enquanto se referia ao nome da minha mãe.
- Não é que é mesmo! – respondeu sorrindo.
- Quantos aninhos você tem, filha? – perguntou ele.
- Oito – respondi, deixando-o ainda mais intrigado.
- É exatamente o número de anos que a deixamos aqui, dona Filomena. Não é? – indagou.
- E não é, seu Zé! – confirmou a velha senhora, com cara de espanto.
Enquanto conversavam, como se fosse um código, fiquei ali por perto, sem nada entender das suas intenções. Alguns minutos mais tarde, a diretora se aproximou e me apresentou os dois que ficaram ali toda tarde me contando sobre a minha mãe, enquanto eu me derretia em lágrimas(...).
quinta-feira, 12 de junho de 2008
PARTE VI - Uma Turma da Pesada
- Alguém viu Pretinha por aí? – perguntou aos colegas.
- Vi sim, lá no calçadão do Mercado das Flores – disse Tristonho.
Tristonho era um moleque de 14 anos, magro, claro, cabelos loiros encaracolados e dos mais perigosos da turma, apesar de ter uma cara de quem sofrera muito e também de bonzinho. Segundo soube meses mais tarde, quando o mataram, já havia assassinado dois colegas de turma e estuprado uma garota em plena luz do dia e na presença de toda a galera sem que ninguém fizesse nada, tamanha era a sua fama entre eles.
- Também vi – disse Farinha.
- Pô! Todo mundo viu a Pretinha e ninguém me diz nada! – esbravejou Preto.
- Ih! Ninguém tem que te falar nada, não! Você que é a fim da guria que corra atrás, malandro! – repreendeu Tristonho.
- Tô a fim de ninguém, não, cara! A Pretinha é irmã de criação e por isso me preocupo com ela. Desde que fugiu de lá, só ficamos juntos uns dois ou três dias, depois ela deu a linha na pipa e sumiu. Fica na tua e cuida da tua vida, falou? – respondeu Preto(...).
quarta-feira, 11 de junho de 2008
PARTE V - Os Pesadelos
- Tem uma criança aqui! – disse o sargento.
- Meus Deus! Esta sangrando e esse cara aí, no seu colo, verifiquem! – determinou o militar, enquanto me puxava para fora do carro, com a ajuda dos demais colegas.
Sem dar uma palavra e chorando copiosamente, o sargento me pegou no colo e me tirou dali de perto, enquanto tentava me consolar. Naquela noite, mais do que nunca, rezei para que mamãe viesse me visitar. No curto período em que estive nas ruas, desde de que deixara a casa de adoção, aquela era a primeira cena dramática que vivia. Certamente, não seria a primeira nem a última e sim, uma dose da bebida amarga da vida que eu iniciava.
- Quem é a menina? – perguntou um outro policial.
- Não quer falar. Ainda está sob o trauma da cena. – disse.
- Ela está ferida? – perguntou o sargento.
- Não. O sangue encontrado é do elemento que a segurava – respondeu o soldado.
- Leve-a daqui. Encaminhe-a para o Comando e lá tomaremos as providências.
Dessa vez, ajudado por um soldado, subi na viatura e fomos direto para o local determinado pelo sargento. Já passava das três da madrugada quando, sem conseguir mais manter meus olhos abertos adormeci(...)
segunda-feira, 9 de junho de 2008
PARTE IV - A Fuga
- Preto? – indaguei.
- Que é Carol! – respondeu.
- Quero minha mãe!... – disse chorando copiosamente..
Sabia que o que estava fazendo estava errado, mas como mudar aquilo? Preto caiu no sono, logo em seguida, enquanto observava tudo e a todos. Senti vontade de voltar e foi o que tentei fazer. Enquanto ele dormia, deixei o local e comecei a perambular pelas calçadas sem destino certo e, quando me dei conta, o dia estava raiando. Sozinha, atravessei aquelas ruas lindas e enormes que davam num majestoso parque cheio de árvores. Continuei naquela direção e logo deparei, pela primeira vez em minha vida, com o mar. Sentei-me à sombra de um coqueiro e comecei a imaginar como seria minha mãe, enquanto chorava sem parar. Com fome e dominada pelo cansaço, adormeci(...)
domingo, 8 de junho de 2008
PARTE III - Do Berçário para a Adoção
- Quantos aninhos essa criança tem? – perguntou uma senhora para a tia que tomava conta da gente.
- Um ano e sete meses – respondeu.
- Já tem algum pretendente para ela? – insistiu.
- Não é ela. É ele – disse minha tia.
- Mas, parece uma menininha. Olha que cabelinhos loirinhos....Que cachinhos lindos e os olhos azuis! Oh! Como é lindo! – exclamou toda feliz.
- Já está sendo providenciada sua adoção – disse a tia. – Parece que os gringos a levarão para a Alemanha – concluiu deixando a mulher muito decepcionada.
- Mas, por que não posso ficar com ela, afinal sou brasileira e acho que o Brasil seria o melhor lugar para criá-la? – respondeu amargurada.
- Por que não escolhe uma outra criança. A Carol, por exemplo, é uma criança linda, não achas? – indagou a tia.
- Não! Não! Como vou criar uma criança dessas. Não tem nada a ver comigo nem com meu marido! Olha a nossa cor e olha a cor dela. Onde está a semelhança? – contra perguntou num tom de desrespeito e racismo explícito.
Eu, até ali não estava entendendo nada. Mais tarde, quando o casal foi embora, a tia pegou minha mãozinha e me levou até um banquinho onde começou a me mostrar algumas coisas que até então me deixava muito confusa e quase sempre me faziam fazer perguntas sem respostas. Daquele dia em diante, comecei a perceber porque as pessoas iam até ali e sumiam com meus colegas brancos e de olhos claros. Comecei a observar esses gestos e isso me deixava muito triste. Olhando à minha volta, contei os colegas que comigo ali chegaram e não eram poucos. Um detalhe me chamou atenção: todos que eram da minha época e os mais velhos que ali já se encontravam, eram de cor ou tinham algum problema físico. Não havia nenhuma criança branca, de olhos coloridos ou de cabelos loiros, convivendo conosco. Eu sabia que não tinha mãe e que ela morrera, quando do meu nascimento. Aos poucos fui tomando conhecimento desses e outros detalhes que nem eu nem meus colegas rejeitados entendíamos. Passamos a nos unir mais e começamos a planejar coisas como, por exemplo, fugir daquele lugar. Eu tinha certeza que não iria conseguir quem me adotasse. Eu era muito pretinha e dificilmente alguma pretinha era adotada e eu já estava crescida, o que era pior ainda.
quinta-feira, 5 de junho de 2008
terça-feira, 3 de junho de 2008
PARTE II - Parto Fatal
Poucos dias se passaram entre a saída da minha mãe da casa da sua amiga e a ida para a casa do seu novo companheiro, quando...
- Tonho! Tonho! Quem são essas pessoas? – gritou apavorada, com a presença de três elementos invadindo o quarto.
Sem que tivesse tempo de responder, os elementos arrastaram-no porta afora e desapareceram na escuridão levando consigo Pará, como era conhecido na favela. Poucos minutos depois, para alívio da minha mãe, ele regressou com o rosto todo ensangüentado e alguns arranhões nos braços e pernas. Era, depois de ir para a sua companhia, a primeira vez que mamãe presenciara uma cena daquelas com ele. Até então, tudo transcorria muito bem entre os dois. Sem querer comentar nada, alegando estar cansado e sem poder falar direito de tanto ter gritado, tomou um banho e deitou-se, enquanto minha mãe preocupada, se perguntava no que teria se metido dessa vez. Quem era aquele cara com quem fora viver? O que teria feito e o que fazia, já que nada sabia a seu respeito, pois pouco conhecia do lugar e das suas amizades, uma vez que sua gravidez deixava-a na maioria do tempo dentro de casa cuidando de mim dentro da sua barriga. Mas, com certeza, ela sabia que tinha entrado numa outra enrascada e que logo outra bomba iria estourar.
Mamãe era uma negra linda e o barrigão lhe dava um charme todo especial. Era nova e não fosse ter se apaixonado pelo italiano, meu pai, talvez tivesse mais sucesso na vida. Era caixa de uma loja de sapatos, na rua da Carioca, quando o conheceu e, tinha tudo para ter sucesso na Itália, para onde a levaria, não fosse ter sido assaltado e ter seu passaporte roubado, o que fez com que permanecesse no país e mudado o rumo da sua história. Talvez, se não tivesse conhecido ele, fosse uma grande passista, pois sambava muito! Tinha um corpo lindo e chamava a atenção de todos. Infelizmente, nem sempre as coisas é como a gente quer e hoje, estou aqui contando a minha história e o pior é que ainda nem nasci, mas falta pouco, no máximo dois meses e vou conhecer a vida lá fora; acompanhar mamãe onde quer que ela vá...
Os dias se passaram e, diferente do que estava previsto, nasci 30 dias antes e numa data difícil de se comemorar. Não sei porque a gente tem que nascer num dia que só existe de quatro em quatro anos!
- Para! Para! – gritava mamãe, cheia de dores.
O barraco que eles moravam era alugado e, apesar de ser de tijolos, não tinha nenhum conforto e apenas um pano enorme separava a cozinha do quarto. O banheiro ficava do lado de fora e outros vizinhos utilizavam-no também. Acho que todo mundo, daquele beco, ia ali! Foi assim que minha mãe pôde ser socorrida, felizmente.
- Socorro! Alguém me ajude! – gritava um rapaz que fora ao banheiro e se deparara com minha mãe contorcendo-se de dores no chão daquele quartinho imundo.
Já passava das dez da noite daquele dia 28 de fevereiro de 1980. Aos poucos as pessoas iam surgindo de todos os becos, e iam tomando conhecimento do que estava se passando. Sem saberem quais as providências tomar ao certo, iam dando suas opiniões cada uma sugerindo uma coisa diferente, foi quando uma senhora, também de cor negra, aparentando bastante cansaço mais pelo tempo que pela idade, pediu que chamassem o Zé do boteco para socorrê-la em seu carro até o hospital mais próximo, pois sua bolsa havia se rompido e tudo indicava que iria me perder, caso não fosse socorrida imediatamente. O mesmo rapaz que a encontrara estendida naquele lugar asqueroso, saiu às pressas ao encontro do tal sujeito sugerido pela bondosa senhora, enquanto eu me esforçava para sair da barriga da minha mãe bem antes do que ela havia planejado. Não demorou muito e o rapaz muito ofegante voltava com a noticia que todos queriam...
- Gente! Ajudem-me a levá-la até a saída do beco. Seu Zé já está lá esperando – disse num tom de quem tinha muita pressa.
Imediatamente, as pessoas se prontificaram em leva-la até o local onde o velho carro se encontrava. Talvez, com um pouco de sorte, conseguissem chegar até o hospital do Andaraí, dado era o estado lastimável daquele velho carro. Mas, tudo bem. O importante era transporta-la o mais rápido possível. Contorcendo-se de dores, mamãe, conseguiu entrar no carro e lá fomos nós. Àquelas alturas, mamãe sofria muito e seu medo maior era o de me perder e isso era notado nas suas palavras, pois repetia constantemente que me salvassem.
- Quem é o seu responsável? – perguntou a enfermeira de plantão.
- Somos seus amigos e a estamos acompanhando, já que se companheiro não se encontrava no momento em eu ela começou passar mal – respondeu Zé do Boteco, que se adiantara na resposta à pergunta da plantonista.
- Pelo visto, está em trabalho de parto e provavelmente não será feito por aqui. Aguardem um só instante que a médica está a caminho – disse tentando confortar todos ali presentes.
Dona Filomena, a senhora negra que acompanhava minha mãe, a toda hora lhe pedia calma. Coitada da mamãe chorava copiosamente enquanto, confundia-se com suas lágrimas, um volume enorme de suor que brotava da sua linda pele negra e aveludada. De repente, como seu Zé já havia pressentido, a enfermeira disse que melhor seria conduzir minha mãe para a Pro Matre, na Praça Mauá. A médica de plantação estava atendendo uma emergência e demoraria mais do que ela esperava e, de qualquer forma o trabalho era de parto e o melhor mesmo seria remove-la dali o mais rápido possível. Sem esperar mais nada, seu Zé pressentindo o que poderia acontecer, imediatamente empurrou a maca, onde ela se encontrava deitada e gemendo, em direção ao velho carro, pegou-a sozinho no colo e a colocou de volta no banco traseiro, pediu que a velha senhora entrasse e saiu em disparada em direção à maternidade no centro da cidade.
O transporte de pacientes de uma unidade médica para outra e vice-versa bem como o atendimento domiciliar, no Brasil, de uma maneira geral, é um problema antigo e que até hoje não conseguiram resolver. Uma das formas de acabar com essa triste situação, seria a privatização sistemática do sistema, onde um único número, por exemplo 119 discado seria o suficiente para a remoção do paciente onde quer que esteja e a remuneração do transporte seria tabelada recebendo o beneficio a ambulância que chegasse primeiro ao local. Essa medida evitaria fatos como o “caso das ambulâncias”, “as compras de ambulâncias que nunca operam”, “as faltas de ambulâncias por sucateamento” entre tantos outros problemas de mesmas características.
- Saiam da frente! Saiam da frente! – gritava ofegante seu Zé que conduzia com muito sacrifício aquela jovem grávida em direção ao interior da maternidade.
Um enfermeiro ofereceu prontamente uma maca e mamãe, finalmente, foi conduzida para a emergência e, após um exame rápido de um jovem médico que passava naquele momento por ela, determinou ao enfermeiro que fosse imediatamente conduzida a sala de partos. Eu já estava ficando cansada daquela situação e, não demorou muito...
- É uma menina! – sorriu o médico, que àquelas alturas já havia feito oito partos com sua equipe médica e, segundo um dos seus auxiliares, tinham ainda muitas horas pela frente até que fossem substituídos.
Passava da zero hora e, para ser mais exata, 00h49m do dia 29 de fevereiro 1980. Este é o horário exato do dia do meu nascimento e também do pior momento da minha vida... Mamãe morreu! Segundo a médica da equipe, ou era ela ou eu e, não sei qual o critério adotado, naquele momento, e me escolheram. Por que não optaram por ela? Tinha tantos planos, apesar das suas condições precárias? Mas, apesar de tudo, até ali meus outros quatro irmãos nunca dependeram de drogas, de ir para as ruas pedir ou roubar dinheiro de ninguém! Por que então, escolheram a mim para viver? Como poderei ter uma vida feliz sem ela do meu lado? Meu padrasto, pouco tempo vivera com ela, teria condições de me educar e aos meus irmãos? Na verdade, nem mamãe sabia direito quem ele era, tão pouco tempo tinha de convivência. Será que ele vai continuar conosco sem ela para tomar conta da gente? O que será do meu futuro e dos meus irmãos?
Enquanto me questionava, olhando toda aquela alegria, por parte da equipe que me salvara, lá fora da grande sala de parto, num corredor frio de onde se podia ver e ouvir o barulho da chuva que caia sem parar e de maneira poucas vezes vista naqueles dias de fevereiro, dona Filomena e seu Zé nem se davam contas do que se passava entre aquelas paredes cheias de aparelhos estranhos; do que ocorrera com a vida da minha mãe, minha heroína! Impacientes com a demora do parto, pois ninguém, apesar das poucas pessoas que ali estavam, os procurara para comentar nada a respeito da paciente que desaparecera numa das salas daquele enorme corredor. De repente, respondendo às preces da bondosa senhora que acompanhara mamãe pela primeira e última vez, numa saída sem volta, alguém perguntou:
- Alguém da família de Mariana Celestina Ribeiro da Silva? – gritou o enfermeiro.
Todos permaneciam em silêncio e olhando-se se questionavam quem seria a tal Mariana. Na verdade, nenhuma das duas pessoas que levaram-na àquela maternidade a conhecia pelo nome verdadeiro, pois na comunidade era conhecida por Nêga, Morena, apenas uma ou outra pessoa a tratava por Mara. Mariana nem pensar! Seu grave estado, quando chegou aquele local, impediu que seus dados fossem tomados e por isso a falta de resposta.
- Alguém conhece Mariana Celestina Ribeiro da Silva? – insistiu o enfermeiro.
O tempo se passava depressa e, como chovia muito, seu Zé não tinha pressa de sair dali. Talvez por isso não se preocupasse em buscar, com mais rapidez, informações sobre o que se passava com mamãe. Dona Filomena, por outro lado, começava a se incomodar e vez em quando comentava a respeito:
- O que estará acontecendo, seu Zé? Será que Nega já teve sua cria? – perguntou a pobre velha.
- Não sei, dona. A gente fica aqui e ninguém diz nada. Mas, será que aquele rapaz que há pouco andou chamando uma tal de Mariana... Pode ser ela, dona Filomena! Eu mesmo não sei seu nome! A senhora sabe? – perguntou assustado.
- Não! É isso mesmo. Vou até lá dentro me informar – disse.
- Vou com você – completou dona Filomena.
Ambos dirigiram-se para a portaria onde, após alguns esclarecimentos tomaram conhecimento do que se passava lá dentro. Uma atendente, muito simpática, conduziu os dois até o local onde se encontrava, ainda sobre um leito, coberto por um lençol branco, minha mãe. Foi então que a médica de plantão, mas que não participara do parto, explicou o que ocorrera. Comovida, mas tendo que cumprir seu papel, a médica anotava os dados fornecidos, pelo pouco que conhecia da minha mãe, da dona Filomena que se derramava em lágrimas.
- Pobre criatura. Tão linda e tão jovem! – sussurrava. – E suas crianças, meu Pai, como ficarão? Quem cuidará desses pobrezinhos? E agora, doutora o que faremos? – indagava, enquanto silenciosa, a jovem médica a contemplava afagando-lhe as mãos.
- Infelizmente, minha senhora, é uma vida que se vai. Felizmente, pudemos salvar sua filha para dar continuidade a essa mesma vida. Com certeza Deus sabe o que faz. Ela não se foi em vão e poderia ter sido salva se não tivesse se entregue tanto. Preferiu que sua filha nascesse, a viver – tentou conforta-los, a médica.
Vendo o sofrimento da velha senhora e do homem que a acompanhava, a médica os conduziu até o berçário, onde puderam ver o lindo bebê que tinha, preso a uma das mãozinhas, o soro que o iria alimentar por algum tempo, já que seu nascimento fora prematuro e necessitava desses recursos. De longe, chorando copiosamente, a pobre velhinha ia me descrevendo... Eu nascera, apesar de prematura, com 2,4kg e 41cm, cabelos pretinhos e arrepiados como os de um chinês, a pele negra avermelhada e sempre inquieta, chorava muito. Acho que era a falta da mamãe para me ninar. Seu Zé disse que era eu um bebezinho lindo e dona Filomena concordou, assim como a médica também. Mas eu era mesmo um lindo bebê! Enquanto me admiravam, uma maca parou em frente ao berçário, na minha direção. Sobre ela, jazia o corpo da minha mãe que, propositalmente o padioleiro parara para se despedir de mim. Meus amigos, num gesto sublime também se despediram e não demorou muito, me acenaram também, num gesto de despedida.
Os dias se passaram, cinco, depois do meu nascimento e ninguém foi me procurar. A direção do hospital começara a se preocupar com meu problema. O Serviço de Assistência Social então tomou sua primeira providência, enviando até o morro da Mangueira um Assistente para que localizasse algum familiar e me tirasse daquele local. Felizmente, como mamãe era uma negra que chamava muita atenção, logo pôde localizar o meu endereço. Meu padrasto se encontrava em casa cuidando dos meus dois irmãos mais novos, já que os outros dois tinham sido entregues a um orfanato assim que nasceram e, conforme fiquei sabendo anos mais tarde, foram doados para duas famílias de estrangeiros, sendo uma italiana e a outra alemã.
- Bom dia. Senhor Pará? – perguntou a jovem assistente.
- Sim, sou eu – respondeu confuso, ao ver aquela jovem branca e linda à sua frente.
- Sou do Serviço Social da Pro Matre onde se encontra sua filha – disse. – Precisamos da sua presença para retira-la de lá, já que não há mais necessidade dela naquele berçário, pois o tratamento que lhe foi aplicado já foi concluído – concluiu.
- Trabalho com carpintaria e estava fora e só esta madrugada, quando regressei, após seis dias, é que tomei conhecimento do que havia acontecido com Nêga. Ainda não acordei de tudo isso e não sei o que vou fazer. Tem dois outros guris que estão com o vizinho e que também precisam de muito cuidado e agora esse que acaba de nascer... – ia continuar, quando a assistente o interrompeu.
- Já estamos sabendo da sua situação, senhor. Entretanto, precisamos que tome uma providência para liberar o mais rápido possível aquele bebê. Sugiro que vá até lá para ver o que podemos fazer, nesse caso – disse.
- Sinceridade, senhora? – perguntou indeciso. – Não sei se irei – respondeu.
- Como assim? – indagou confusa, a assistente.
- Não tenho onde deixá-la. Tenho mais dois e não sei o que fazer. Além do mais, não me sinto tão pai assim. Conheci Nêga tem mais ou menos dois meses e ela nem mesmo chegou a tomar conhecimento dos meus problemas. E, acontece uma coisa dessas! – explicou cheio de indignação.
- Entendo, senhor – disse. – De qualquer forma, seria bom o senhor ir até lá. Tentaremos buscar uma forma de ajudá-lo. O senhor não conhece ninguém da sua família? – perguntou.
- Não. Infelizmente não cheguei a conhecer ninguém dela. Mas, pelo pouco que me contou, não tinha ninguém mesmo – respondeu.
- E os outros filhos, onde se encontram? – insistiu.
Foram doados, segundo ela. Na verdade, não cheguei a conhece-los. Como disse, tivemos pouco tempo de convivência. Gostaria que estivesse aqui, pois era maravilhosa e estávamos nos dando muito bem. Como disse, tenho problemas que ela desconhecia e que estava corrigindo em função dessa convivência, que apesar de pouca, estava sendo-me muito benéfica. Foi uma pena o que aconteceu e, com toda certeza, não sei o que vou fazer daqui pra frente – concluiu
segunda-feira, 2 de junho de 2008
PARTE I
SINOPSE - DO INFERNO PARA O CÉU
Pretinha, personagem principal do romance, nunca conheceu seus genitores e nem tão pouco teve pais adotivos. Seu pai, que era italiano, e que vivia na ilegalidade no Brasil, após ter tido roubado seu passaporte, contraiu dívidas com traficantes e não cumpriu com elas sendo assassinado por isso. Sua mãe, uma linda negra, impossibilitada de sustentar quatro filhos e mais uma gravidez, entregou os dois mais novos para um casal de italianos; amigou-se com um nordestino que morava na favela da Mangueira e durante um parto complicado, veio a falecer, deixando seu companheiro com dificuldades para criá-los e desestimulado, nunca foi conhecer o bebê que ficou abandonado na maternidade e que alguns dias depois foi encaminhado para uma entidade de adoção, no centro do Rio.
Sentido-se constantemente rejeitada, Pretinha resolve, após ser incentivada por um dos colegas órfãos, fugir do orfanato indo para as ruas do centro da cidade onde permaneceu por 30 dias até ser reconduzida a casa de onde fugira, quando estava sendo levada por criminosos que foram perseguidos e presos pela polícia, sendo na ocasião, um deles assassinado.
Aos oito anos de idade, finalmente uma velha senhora, que conhecera sua mãe, tenta sua adoção, com o apoio da assistente social que prestava serviço naquele orfanato e, apesar de todos os esforços, a adoção não se concretiza, mas Pretinha também nunca mais voltaria para o orfanato. A velha senhora falece em função de complicações na sua saúde, agravada pela teimosia da sua protegida que, indiferente aos seus conselhos, é aos oito anos e seis meses estuprada por três elementos da favela e que mais tarde são assassinados pelo mesmo motivo.
Aos nove anos de idade, após conhecer um traficante que vivia no alto do morro, na mesma comunidade, e contra a vontade do Zé da Birosca, um nordestino que apoiara sua pretensa adoção juntamente com a velha senhora que falecera, Pretinha, alegando que sua esposa nunca gostara dela, vai morar com o tal elemento que logo a faz de objeto sexual e de empregada, além de ser espancada, ficar de castigo, assistir às orgias e maldades que lhe impunha e aos seus oponentes, entre tantos outros caprichos.
Aos doze anos de idade, já conhecia a maioria dos bailes funk das comunidades, mais próximas pois sua amiga assídua freqüentadora, leva-a sempre nesses lugares. Pretinha tem seu primeiro filho e que é motivo do assassinato dos seus dois melhores amigos, Blenda e Binho, com os quais mantinha um triângulo amoroso. Nicolas, seu bebê, nada se parecia com Dica, seu companheiro, motivo de chacota por parte dos comparsas e gerando grande indignação(...). Seu presente de aniversário, um buquê de rosas vermelhas, um chaveiro e uma gargantilha, anunciavam a morte dos seus únicos amigos assassinados por vingança pelo seu próprio companheiro(...).
Aos quatorze anos de idade, após a tomada da favela por uma quadrilha rival, acompanha Dica na fuga e refugia-se na favela da Vila Cruzeiro, onde em pouco tempo é estupidamente assassinado pelos seus comparsas, após tentar trapaceá-los numa partilha de um assalto a um carro forte e que envolvia muito dinheiro.
Sem amigos e ninguém que pudesse ampará-la, perambulou por alguns anos nas ruas do centro do Rio e depois do centro de Duque de Caxias, onde se uniu a um grupo de invasores morando por algum tempo sob um teto de plástico na favela da Vila Ideal. Ainda nessa favela, é ajudada por um rapaz que a inscreve num programa da casa própria.
Preto, seu companheiro de orfanato, que a ajudou a fugir e com o qual, algum tempo mais tarde, manteve um caso, cumpria pena em Bangu por associação ao tráfico de drogas. Apaixonado por ela, prometera que quando saísse a procuraria e nunca mais voltaria a traficar ou ter qualquer envolvimento com o tráfico ou coisas dessa natureza.
Após deixar a favela da Vila Ideal, por causa da construção de casas no local onde erguera seu barraco, transfere-se, com seu filho, para a favela do lixão de onde passa a tirar seu sustento. Por uma coincidência do destino, o jovem que sempre a ajudava, quando ainda morava na favela da Vila Ideal, na verdade era seu irmão. Diogo como era chamado, foi criado por uma família na mesma comunidade que ela, sem no entanto se conhecerem. Diferentemente do outro irmão, que ainda cumpre pena, por assassinato e envolvimento com o tráfico, seu único problema foi ter pedido dinheiro emprestado, para ajudar Diego, jurado de morte, a um agiota da favela e ter que fugir pelas ameaças que sofria por não conseguir pagar. Foi assim que conheceu Pretinha e a ajudou inscrevendo-a no Programa da Casa Própria e a manter contato com o Preto, no presídio, e que seria seu futuro companheiro e pai de quatro dos seus cinco filhos.
Pretinha órfã de pai e mãe, estuprada aos oito anos, casada aos nove anos, um filho aos doze, apesar de conhecer o mundo das drogas, do crime, da humilhação sofrida pelo seu parceiro, das ruas, de passar fome, catar lixo e muitas outras coisas piores, teve forças para superar tudo, sem se viciar e nem se prostituir. Hoje, aos vinte e sete anos, ao lado de seu companheiro que, por amor, deixou o mundo do crime e, cuidando dos seus cinco filhos, considera-se uma mulher feliz e posso afirmar que é pois jamais esquecerei seus sorrisos, seu entusiasmo e o carinho que tem pelas pessoas, pela vida. Pretinha, Carol, Carolina, não importa. Importante é que sobreviveu pela força de vontade e, apesar da realidade em que vive nos dias de hoje, se diz uma pessoa feliz (...).
NOTA DO AUTOR
As autoridades estão preocupadas com armas e drogas e deveriam incluir, também, esse item importante e que vem crescendo absurdamente. O número de crianças que se prostituem e engravidam, dentro dessas comunidades, ultrapassa a barreira do social e chega a ser um caso de polícia. Por outro lado, aqueles políticos que muitas das vezes ajudam para o surgimento desordenado dessas comunidades, doando terras griladas e incentivando invasões com a finalidade de angariar cada vez mais votos, deveriam atentar, também, para esse lado tão triste, notório e relegado à segundos planos.
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