sábado, 14 de junho de 2008

PARTE VIII - Atrapalhada Adoção

(...)Estava no meio da minha refeição, quando uma voz conhecida chamou pelo meu nome:
- Carolina! Carolina! – olhei na direção da voz e vi a tia Catarina, a Assistente Social, sorrindo.
- Oi, tia! – disse sem entender do que se tratava e continuei comendo.
- Carolina! – repetiu.
- Já vou, tia. Já estou terminando – respondi, despreocupadamente.
Estava cheia de fome, pois não tinha feito qualquer lanche, desde que levantara pela manhã e me entocara nos fundos do quintal. Estava envolvida nas minhas tristezas e não atendi ao chamado das tias nem comi o lanche, que um visitante me dera. Preferi dá-lo para o Teço, enquanto estive toda manhã conversando com ele. A tia Catarina se aproximou e me deu um beijinho.
- Vejo que estás faminta, não é mesmo? – indagou sorrindo.
Olhei para ela e sorri inocente sem ter idéia da surpresa que me esperava lá fora.
- Assim que terminar o almoço, vá escovar os dentes e pegue todos os seus pertences – disse.
- Tudo bem, tia – e continuei almoçando.
Estava tão desacreditada, que nem me dei conta na expressão “Pegue todos os seus pertences,” que ela havia me dito. Juninho curioso aproximou-se e perguntou:
- Que foi que ela disse Pretinha?
- Pra eu pegar todos os meus pertences – respondi.
- Pra que, Carol? – indagou Demétrius, o orelha, que estava ao meu lado.
- Não sei. Acho que vai me trocar de lugar com alguém – respondi.
- Será que foi porque você ficou escondida, a manhã toda, lá na mangueira, Pretinha? - perguntou Cebolinha, o terrível.
Enquanto todos estavam curiosos com aquela súbita presença e não me davam um tempo sem que me perguntassem sobre o que ela falara comigo, eu procurava comer o mais que podia, pois estava faminta. Assim que terminei, fui até o alojamento e, numa sacola velha que tinha guardado desde que voltara da minha fuga, enfiei tudo que me pertencia e fui ao seu encontro, na sala da diretora, conforme havia me pedido. Para minha surpresa, vovó Filomena me aguardava sentada numa velha poltrona com forro de cetim azul com detalhes roxos(...).

PARTE VII - A Visita

(...)O sol havia se escondido por trás das paredes do orfanato e a noite começou a cair rapidamente. Um vento frio começou a soprar cada vez mais forte. Parecia que ia haver mudança de tempo. Apesar do mês de julho ser mesmo bastante friento, aquele estava sendo bem ameno. Mesmo assim começara a mudar. O jantar foi servido e em seguida fomos para a cama. Esperei todos dormirem e, nas pontas dos pés, deixei o alojamento e fui me sentar numa velha cadeira na varanda. Eu não tinha medo de ficar ali, como antes. Na verdade, esperava que minha mãe fosse me visitar naquela noite, era o que me incomodava e me deixava ansiosa. As estrelas tinham sumido e a lua nem sinal dela. O pátio que dava acesso à saída do orfanato era longo e cheio de árvores feias com seus galhos sem folhagem que mais pareciam estar morrendo. Durante o dia até que não era tão sinistro, mas à noite, apesar de não ter medo, dava uns arrepios esquisitos. Sem que ninguém me observasse, fui até às imediações do portão e observei que não era difícil me evadir, caso quisesse. Olhei bem e senti uma força querendo que fugisse naquele momento. De repente, tive a sensação de que estava sendo observada e resolvi voltar e ir para meu beliche. Fiz isso três ou quatro vezes durante aquela semana. No domingo, enquanto algumas pessoas visitavam o orfanato, vi que havia um senhor branco, baixinho e quase careca, que usava um bigodinho falhado e que falava muito esquisito, me aproximei e logo uma senhora escura também se aproximou de nós...
- Zé! Não seria ela? – disse olhando-me com certo espanto.
- Será? – respondeu com sotaque.
- Como se chama minha filha? – perguntou-me a velha senhora.
- Carolina. Mas pode me chamar de Pretinha – respondi.
- Até o apelido se parece com o dela – disse olhando-o enquanto se referia ao nome da minha mãe.
- Não é que é mesmo! – respondeu sorrindo.
- Quantos aninhos você tem, filha? – perguntou ele.
- Oito – respondi, deixando-o ainda mais intrigado.
- É exatamente o número de anos que a deixamos aqui, dona Filomena. Não é? – indagou.
- E não é, seu Zé! – confirmou a velha senhora, com cara de espanto.
Enquanto conversavam, como se fosse um código, fiquei ali por perto, sem nada entender das suas intenções. Alguns minutos mais tarde, a diretora se aproximou e me apresentou os dois que ficaram ali toda tarde me contando sobre a minha mãe, enquanto eu me derretia em lágrimas(...).

quinta-feira, 12 de junho de 2008

PARTE VI - Uma Turma da Pesada

(...)Enquanto eu tentava dormir, não muito distante dali, Preto e sua turma aprontavam.
- Alguém viu Pretinha por aí? – perguntou aos colegas.
- Vi sim, lá no calçadão do Mercado das Flores – disse Tristonho.
Tristonho era um moleque de 14 anos, magro, claro, cabelos loiros encaracolados e dos mais perigosos da turma, apesar de ter uma cara de quem sofrera muito e também de bonzinho. Segundo soube meses mais tarde, quando o mataram, já havia assassinado dois colegas de turma e estuprado uma garota em plena luz do dia e na presença de toda a galera sem que ninguém fizesse nada, tamanha era a sua fama entre eles.
- Também vi – disse Farinha.
- Pô! Todo mundo viu a Pretinha e ninguém me diz nada! – esbravejou Preto.
- Ih! Ninguém tem que te falar nada, não! Você que é a fim da guria que corra atrás, malandro! – repreendeu Tristonho.
- Tô a fim de ninguém, não, cara! A Pretinha é irmã de criação e por isso me preocupo com ela. Desde que fugiu de lá, só ficamos juntos uns dois ou três dias, depois ela deu a linha na pipa e sumiu. Fica na tua e cuida da tua vida, falou? – respondeu Preto(...).

quarta-feira, 11 de junho de 2008

PARTE V - Os Pesadelos

(...)Ficamos conversando e, vez em quando insistia em me levar para morar com ela. Naquela mesma noite, enquanto dormia numa calçada da Candelária, umas pessoas me pegaram pelos braços e me enfiaram dentro de um carro enorme e me levaram dali. No começo, pensei que fosse o pessoal da FEBEM, mas não vi ninguém falando nada sobre tirar o pessoal da rua, que era o comentário que a gente ouvia a todo instante. Chorei, esperneei, mais de nada adiantou. Não demorou muito e pararam, quando alguns carros da polícia os interceptaram. De repente, ouvi tiros e comecei a gritar enquanto um dos homens que me segurava caia sobre o meu frágil colo. Estava morto! Uma bala o atingira no pescoço e o ferira mortalmente. Os tiros continuaram e eu gritava desesperadamente. Fora do carro, correria e gritos de homens fardados, como os que eu via passando nas ruas por onde eu perambulava. Um deles ao me ver, gritou:
- Tem uma criança aqui! – disse o sargento.
- Meus Deus! Esta sangrando e esse cara aí, no seu colo, verifiquem! – determinou o militar, enquanto me puxava para fora do carro, com a ajuda dos demais colegas.
Sem dar uma palavra e chorando copiosamente, o sargento me pegou no colo e me tirou dali de perto, enquanto tentava me consolar. Naquela noite, mais do que nunca, rezei para que mamãe viesse me visitar. No curto período em que estive nas ruas, desde de que deixara a casa de adoção, aquela era a primeira cena dramática que vivia. Certamente, não seria a primeira nem a última e sim, uma dose da bebida amarga da vida que eu iniciava.
- Quem é a menina? – perguntou um outro policial.
- Não quer falar. Ainda está sob o trauma da cena. – disse.
- Ela está ferida? – perguntou o sargento.
- Não. O sangue encontrado é do elemento que a segurava – respondeu o soldado.
- Leve-a daqui. Encaminhe-a para o Comando e lá tomaremos as providências.
Dessa vez, ajudado por um soldado, subi na viatura e fomos direto para o local determinado pelo sargento. Já passava das três da madrugada quando, sem conseguir mais manter meus olhos abertos adormeci(...)

segunda-feira, 9 de junho de 2008

PARTE IV - A Fuga

(...)Comecei a chorar e ele sentou-se ao meu lado e começou a me explicar a vida que levava. Talvez se tivesse me contado antes, não tivesse seguido seu caminho.
- Preto? – indaguei.
- Que é Carol! – respondeu.
- Quero minha mãe!... – disse chorando copiosamente..
Sabia que o que estava fazendo estava errado, mas como mudar aquilo? Preto caiu no sono, logo em seguida, enquanto observava tudo e a todos. Senti vontade de voltar e foi o que tentei fazer. Enquanto ele dormia, deixei o local e comecei a perambular pelas calçadas sem destino certo e, quando me dei conta, o dia estava raiando. Sozinha, atravessei aquelas ruas lindas e enormes que davam num majestoso parque cheio de árvores. Continuei naquela direção e logo deparei, pela primeira vez em minha vida, com o mar. Sentei-me à sombra de um coqueiro e comecei a imaginar como seria minha mãe, enquanto chorava sem parar. Com fome e dominada pelo cansaço, adormeci(...)

DVD Duplo de O INFERNO PARA O CÉU

domingo, 8 de junho de 2008

PARTE III - Do Berçário para a Adoção

Minha dramática história estava começando ali, depois daquele encontro com aquela assistente social. Na verdade, nem cheguei a conhecer meu padrasto porque ele não foi até a maternidade me buscar e, nem se quer me visitou um único dia. Os dias foram se passando e, eu que já havia sido adotada por todos os enfermeiros e médicos que por ali passavam, já estava ficando acostumada com todo aquele paparico até que, poucos dias depois, quinze para ser mais precisa, me encaminharam para o setor de adoção. O local ficava dentro da própria maternidade. Quando cheguei, notei que todos me olhavam com uma certa indiferença. Por que seria? O tempo foi passando e eu fui ganhando peso e crescendo. Comecei então a balbuciar minhas primeiras palavrinhas e só não entendia porque meus colegas nunca eram os mesmos. Eles ficavam ali comigo e logo desapareciam. Será que tinham medo de mim? Fiz meu primeiro aninho e, quando já estava próximo de fazer o segundo, fui transferida para um outro lugar. Lá, as crianças eram maiores que eu, na maioria. Algumas chegavam mesmo a ter doze, treze anos e até mais idade. Vez em quando uma sumia e sempre acontecia com as da minha idade. Sempre que um casal ia até ali, brincava comigo e com meus amiguinhos e depois o levava e nunca mais o via de novo. Fui crescendo e vendo essa cena se repetindo sempre. Um dia, quando estava brincando na gangorra, ouvi algo que nunca mais saiu da minha mente, apesar de já ter ouvido aquelas mesmas palavras diversas vezes, nunca tinha dado ouvidos para elas. Acho que não entendia seu significado, mas já com cinco aninhos eu começava a diferenciar certas palavras e atitudes.
- Quantos aninhos essa criança tem? – perguntou uma senhora para a tia que tomava conta da gente.
- Um ano e sete meses – respondeu.
- Já tem algum pretendente para ela? – insistiu.
- Não é ela. É ele – disse minha tia.
- Mas, parece uma menininha. Olha que cabelinhos loirinhos....Que cachinhos lindos e os olhos azuis! Oh! Como é lindo! – exclamou toda feliz.
- Já está sendo providenciada sua adoção – disse a tia. – Parece que os gringos a levarão para a Alemanha – concluiu deixando a mulher muito decepcionada.
- Mas, por que não posso ficar com ela, afinal sou brasileira e acho que o Brasil seria o melhor lugar para criá-la? – respondeu amargurada.
- Por que não escolhe uma outra criança. A Carol, por exemplo, é uma criança linda, não achas? – indagou a tia.
- Não! Não! Como vou criar uma criança dessas. Não tem nada a ver comigo nem com meu marido! Olha a nossa cor e olha a cor dela. Onde está a semelhança? – contra perguntou num tom de desrespeito e racismo explícito.
Eu, até ali não estava entendendo nada. Mais tarde, quando o casal foi embora, a tia pegou minha mãozinha e me levou até um banquinho onde começou a me mostrar algumas coisas que até então me deixava muito confusa e quase sempre me faziam fazer perguntas sem respostas. Daquele dia em diante, comecei a perceber porque as pessoas iam até ali e sumiam com meus colegas brancos e de olhos claros. Comecei a observar esses gestos e isso me deixava muito triste. Olhando à minha volta, contei os colegas que comigo ali chegaram e não eram poucos. Um detalhe me chamou atenção: todos que eram da minha época e os mais velhos que ali já se encontravam, eram de cor ou tinham algum problema físico. Não havia nenhuma criança branca, de olhos coloridos ou de cabelos loiros, convivendo conosco. Eu sabia que não tinha mãe e que ela morrera, quando do meu nascimento. Aos poucos fui tomando conhecimento desses e outros detalhes que nem eu nem meus colegas rejeitados entendíamos. Passamos a nos unir mais e começamos a planejar coisas como, por exemplo, fugir daquele lugar. Eu tinha certeza que não iria conseguir quem me adotasse. Eu era muito pretinha e dificilmente alguma pretinha era adotada e eu já estava crescida, o que era pior ainda.

CAPA ABERTA DE "0 INFERNO PARA O CÉU"