domingo, 8 de junho de 2008

PARTE III - Do Berçário para a Adoção

Minha dramática história estava começando ali, depois daquele encontro com aquela assistente social. Na verdade, nem cheguei a conhecer meu padrasto porque ele não foi até a maternidade me buscar e, nem se quer me visitou um único dia. Os dias foram se passando e, eu que já havia sido adotada por todos os enfermeiros e médicos que por ali passavam, já estava ficando acostumada com todo aquele paparico até que, poucos dias depois, quinze para ser mais precisa, me encaminharam para o setor de adoção. O local ficava dentro da própria maternidade. Quando cheguei, notei que todos me olhavam com uma certa indiferença. Por que seria? O tempo foi passando e eu fui ganhando peso e crescendo. Comecei então a balbuciar minhas primeiras palavrinhas e só não entendia porque meus colegas nunca eram os mesmos. Eles ficavam ali comigo e logo desapareciam. Será que tinham medo de mim? Fiz meu primeiro aninho e, quando já estava próximo de fazer o segundo, fui transferida para um outro lugar. Lá, as crianças eram maiores que eu, na maioria. Algumas chegavam mesmo a ter doze, treze anos e até mais idade. Vez em quando uma sumia e sempre acontecia com as da minha idade. Sempre que um casal ia até ali, brincava comigo e com meus amiguinhos e depois o levava e nunca mais o via de novo. Fui crescendo e vendo essa cena se repetindo sempre. Um dia, quando estava brincando na gangorra, ouvi algo que nunca mais saiu da minha mente, apesar de já ter ouvido aquelas mesmas palavras diversas vezes, nunca tinha dado ouvidos para elas. Acho que não entendia seu significado, mas já com cinco aninhos eu começava a diferenciar certas palavras e atitudes.
- Quantos aninhos essa criança tem? – perguntou uma senhora para a tia que tomava conta da gente.
- Um ano e sete meses – respondeu.
- Já tem algum pretendente para ela? – insistiu.
- Não é ela. É ele – disse minha tia.
- Mas, parece uma menininha. Olha que cabelinhos loirinhos....Que cachinhos lindos e os olhos azuis! Oh! Como é lindo! – exclamou toda feliz.
- Já está sendo providenciada sua adoção – disse a tia. – Parece que os gringos a levarão para a Alemanha – concluiu deixando a mulher muito decepcionada.
- Mas, por que não posso ficar com ela, afinal sou brasileira e acho que o Brasil seria o melhor lugar para criá-la? – respondeu amargurada.
- Por que não escolhe uma outra criança. A Carol, por exemplo, é uma criança linda, não achas? – indagou a tia.
- Não! Não! Como vou criar uma criança dessas. Não tem nada a ver comigo nem com meu marido! Olha a nossa cor e olha a cor dela. Onde está a semelhança? – contra perguntou num tom de desrespeito e racismo explícito.
Eu, até ali não estava entendendo nada. Mais tarde, quando o casal foi embora, a tia pegou minha mãozinha e me levou até um banquinho onde começou a me mostrar algumas coisas que até então me deixava muito confusa e quase sempre me faziam fazer perguntas sem respostas. Daquele dia em diante, comecei a perceber porque as pessoas iam até ali e sumiam com meus colegas brancos e de olhos claros. Comecei a observar esses gestos e isso me deixava muito triste. Olhando à minha volta, contei os colegas que comigo ali chegaram e não eram poucos. Um detalhe me chamou atenção: todos que eram da minha época e os mais velhos que ali já se encontravam, eram de cor ou tinham algum problema físico. Não havia nenhuma criança branca, de olhos coloridos ou de cabelos loiros, convivendo conosco. Eu sabia que não tinha mãe e que ela morrera, quando do meu nascimento. Aos poucos fui tomando conhecimento desses e outros detalhes que nem eu nem meus colegas rejeitados entendíamos. Passamos a nos unir mais e começamos a planejar coisas como, por exemplo, fugir daquele lugar. Eu tinha certeza que não iria conseguir quem me adotasse. Eu era muito pretinha e dificilmente alguma pretinha era adotada e eu já estava crescida, o que era pior ainda.

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